Perspectivas do cinema nacional são discutidas por pesquisadores e gestores públicos

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Allex Medrado, Ipea: “Maior parte da renda do Cinema permanece concentrada em poucas empresas”

O debate ocorrido na mesa Cinema e desenvolvimento – panorama, perspectivas e potencialidades, nesta quinta-feira, 21, buscou pontuar tendências e possibilidades para a cinematografia brasileira, e debateu, de forma integrada, indústria, regulação, políticas públicas, consumo, cadeia produtiva, obstáculos e mecanismos legais, e a história do cinema e da produção audiovisual brasileira.

Allex Medrado, editor e produtor audiovisual do Ipea, coordenou a discussão, que integrou a programação da Mostra de Cinema do Desenvolvimento, parte da 3ª Code. Para ele, o dualismo do cinema, entre arte e indústria, não pode ser esquecido em qualquer conversa sobre o tema. “Trata-se de um produto que gera renda e custos altos, e cria imagens que designam afetos, sensações e dão suporte à cultura, constrói olhares e modos de ser, e nos educa”, definiu.

Em 2012, de acordo com o editor, 83 filmes foram produzidos no país, e o público total dessas obras chegou a 15 milhões. “Mas a maior parte da renda permanece concentrada em poucas empresas. Enquanto isso, filmes independentes, feitos sempre com baixos orçamentos, vêm alcançando atenção internacional, como foi o caso de Trabalhar Cansa e O Som Ao Redor, que repercutiram bastante no exterior, mas tiveram pouca aderência por parte dos expectadores brasileiros”, criticou Medrado.

“Há sustentabilidade para uma possível indústria brasileira de cinema?”, indagou ele, ao dizer que a produção e sua regulação ainda dependem muito de meandros políticos. “Há uma perna menor nesse tripé — anunciando uma possível ruína —, uma assimetria entre produção, distribuição e exibição. A concorrência é injusta e temos muito que nos preocupar, ainda, com a formação de uma cultura de consumo do cinema nacional”, afirmou.

Recursos

Leopoldo Nunes, secretário de Audiovisual do Ministério da Cultura, destacou que a nova lei de TV por assinatura prevê alguns anos de acomodação para a produção brasileira de audiovisual, que deve aumentar e muito. “O cenário é absolutamente novo, mas temos o Fundo Setorial do Audiovisual, e temos hoje R$ 2,5 bilhões em recursos para o audiovisual para os próximos três anos, além disso, Centro-Oeste, Norte e Nordeste contam as cotas setoriais, de 30% desses recursos a serem destinados para essas regiões, o que requer maior esforço para atender o cumprimento dessa cota”, argumentou.

“A revolução tecnológica atual possibilita o acesso mais democrático à produção de maior qualidade. O desmonte da indústria pesada e a formação de empresas menores torna tudo muito mais acessível, o que transformou completamente o cenário. A produção independente custa muito mais barato do que as altas produções e sabemos que é preciso incentivar esse setor”, completou. Nunes ressaltou o papel regulador da Ancine: “não se tem um mercado estável e justo sem uma regulação eficiente”.

Cinema independente

A cineasta e professora de cinema da UnB, Erika Bauer, frisou que o cinema surge como grande circo de variedades e como um mecanismo forte de ordenação do mundo. Já no início, vanguardas surgiram. Os cinemas alemão e soviético atuaram em alternativa mesmo no começo do cinema. Depois das guerras, o neorrealismo repensa o papel do cinema. Ou seja, sempre houve o cinema hegemônico e o independente.

Para ela, a produção independente atual está conseguindo mostrar um pouco mais o que é o Brasil, graças às aberturas que ocorreram nos últimos anos. “É preciso pensar a lógica dos grandes filmes que hoje são produzidos, pois a Globo Filmes, uma das maiores empresas de cinema do país, faz cinema industrial totalmente baseado na isenção de impostos. Essa lógica também precisa ser repensada. Não existe agregação do imaginário, nada acontece com esses produtos”, acentuou.

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Marcos Ligocki Jr, produtor e diretor: “Compartilhamento virtual influencia o Cinema em todo mundo”

Adirley Queiroz, cineasta integrante do Coletivo de Cinema de Ceilândia (Ceicine), disse que, além de produzir, quem faz cinema precisa pensar onde é que o filme vai ser exibido. O cinema brasileiro, para ele, já conta com grande volume de recursos e a bilheteria de grandes sucessos deve realimentar a produção dos filmes que não têm grande espaço. “Precisamos poder fazer filmes e entrar nas salas de cinema, e as salas de caráter público, não comercial, devem fazer parte de uma política de governo”.

Queiroz ressaltou ainda que o acesso aos editais e às oportunidades de patrocínios via incentivo governamental devem ser justas e democráticas, acessíveis a quaisquer produtores, grandes ou pequenos.

Na visão do presidente do Conselho de Cultura do Distrito Federal, Márcio Moraes, incentivo existe muito, mas uma lei de cotas para o cinema nacional ainda não. “O cinema americano ocupa 75% das salas brasileiras. Políticas de exibição e de distribuição precisam ser feitas. O cinema americano criou lei de cotas há muitas décadas, que fez do setor o que ele é hoje, e que barrou a entrada do cinema europeu no país, beneficiando todas as empresas envolvidas no processo. Aqui, precisamos de uma cota de tela forte, massiva”, reivindicou.

Pesquisa

Erika Bauer integra a diretoria do Fórum das Escolas de Cinema e afirmou que no país existem hoje 52 escolas de graduação em Cinema, e que não há mensurações sobre essas escolas, seus números, gargalos e conquistas. “Sem pesquisa sobre postos de trabalho e ensino, não conseguimos obter respostas e qualificar ainda mais a formação cinematográfica no Brasil”. Ao concluir sua fala, ela afirmou que “investir em cultura é investir em mão de obra, em potencialidades, em trabalho, e na formação de recursos humanos qualificados”.

História

O produtor e diretor Marcos Ligocki Jr. traçou a linha do tempo da produção cinematográfica do Brasil a partir dos anos 1970. Destacou que a Embrafilme realizou, até 1983, 300 filmes, mas teve seu potencial minado e foi extinta em 1990, durante o governo Collor e o Brasil passou a fazer um filme por ano. A Lei do Audiovisual, de 1993, movimentou um novo ciclo de produção. Essa lei era prevista para vigorar até 2003, mas foi prorrogada por mais 20 anos. “Carlota Joaquina”, de 1995, dirigido Carla Camurati, de baixo orçamento, teve grande sucesso, no ano em que o país tinha o menor número de salas, 1033. A partir da segunda metade dos anos 1990, as grandes empresas de exibição chegaram ao Brasil, gerando crescimento da quantidade de salas.

Em 1998 foi lançado o filme “Central do Brasil”, premiado internacionalmente. Foi o ano de criação da Globo Filmes, que influenciou positivamente o cenário produtivo. No ano seguinte o site Napster inicia a mudança da indústria musical, que passa a ser voltada para eventos e não mais para venda de discos, e o compartilhamento virtual influencia também o cinema em todo mundo.

Em 2001 nasce a Ancine, com os principais objetivos de aumentar a competitividade do setor, convergir elos produtivos, garantir exibição das obras nacionais e a participação delas em vários segmentos do mercado. Em 2006, 73 filmes foram feitos, e um ano depois, é lançado “Tropa de Elite”, que tem sua sequência lançada em 2010, alcançando novo recorde de bilheteria. “Tenta-se copiar o modelo de fora, processos passam a ser mais significativos, o país passa a ser percebido internacionalmente, e essas estruturas vem interferindo na forma de fazer cinema”, destacou Ligocki Jr.

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