Painel discutiu modelo de crescimento e distribuição de renda do Brasil e da América Latina

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O modelo econômico adotado no Brasil nos últimos anos foi a grande temática analisada nesta terça-feira, 19, durante o painel Crescimento com distribuição de renda: a experiência internacional e o caso brasileiro, no primeiro dia da 3ª Conferência do Desenvolvimento.

O modelo brasileiro de redistribuição de renda foi analisado por Júlio Sérgio Gomes de Almeida, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo ele, essa política teve um boom de crescimento e determinou um cíclico de consumo e de investimento do país. “Um modelo guiado pelo consumo ou pelo investimento não são neutros com relação à direção da economia, mas o modelo de consumo brasileiro valorizou muito o salário, aumentou muito o emprego, e gerou um problema: criou-se um modelo que também é de desindustrialização, que valoriza demais o consumo, aumenta o custo do setor de serviços ― que não acompanha a produtividade ―, valoriza a moeda e tira a indústria da concorrência”, pontuou.

Almeida ressaltou que o modelo em vigor no Brasil perde muito da contribuição da indústria, que é o setor onde há inovação por excelência, e que corresponde a 30% do investimento, apesar da pouca presença atual no PIB. “Portanto o potencial de crescimento se reduz, pois a produtividade no setor de serviços é difícil de aumentar, assim como não há como exportar serviços. Como é um modelo de baixo investimento, é também de baixa poupança”, afirmou.

De acordo com a análise do professor, o Brasil fez a distribuição de renda mas não adaptou sua política econômica para essa realidade. A política econômica, segundo ele, ainda deve se adaptar. “Não houve mudança na política de longo prazo. Por exemplo, o governo não deveria deixar o câmbio se valorizar, devia ter lutado mais. Aprendeu tarde a importância disso e hoje paga um preço elevado. A taxa de inflação se elevou. Agora, o Brasil tem que aumentar a produtividade na indústria de forma extraordinária, o que pode gerar automação do setor, mas não vejo essa automação, porque a base econômica continua sendo o setor de serviços e o consumo. Tem que fortalecer a política de produtividade, adaptar o gasto corrente e o gasto de investimento. Fizemos um belíssimo trabalho de distribuição de renda, e criamos um ciclo de crescimento invejável para muita gente, mas os desafios agora são outros”, determinou.

Marcelo Neri, presidente do Ipea, afirmou que de 2003 a 2011, o PIB do Brasil cresceu 27%, e a renda per capita, 47%, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). “Em 2012, ano adverso para o nosso crescimento, com PIB em baixo crescimento, segundo a Pesquisa Mensal do Emprego (PME), o crescimento da renda per capita do trabalho foi de 5,1%. Ou seja, faz muita diferença olharmos para o PIB e para a PNAD ou a PME, e em 2012 esse paradoxo é ainda maior”, frisou Neri.

Segundo ele, “poupamos pouco, e em termos de acumulação de capital, isso é preocupante. Se a demografia e expectativa de vida continuarem em alta, e os juros, as incertezas e riscos continuarem em queda, a taxa de poupança vai cair ainda mais”, assinalou.

O Brasil, segundo pesquisas que vão à casa das pessoas, está muito melhor do que nas contas nacionais.

América Latina

As crises econômicas dos anos 1980 resultaram em impactos negativos importantes para a América Latina, principalmente com relação às taxas de pobreza, que aumentaram muito nessa década e só foram revertidas 25 anos depois. Na década de 1990 inicia-se a redução dessa taxa, explicada pela superação da hiperinflação, que passa a ficar abaixo de dois dígitos nesse período, pelo gasto social, em crescimento constante, e pelo bônus demográfico, que permanecerá no continente até pelo menos 2025, e representa uma redução da taxa de dependência da população. A análise e o prognóstico do continente latino foram apresentados no painel por Antonio Prado, secretário-executivo adjunto da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

A desigualdade de renda em toda a América Latina diminuiu muito nos últimos anos, mas dívidas históricas ainda são grandes e precisam ser reduzidas. Além disso, Prado apontou que a vulnerabilidade da população “ainda existe, e choques econômicos na América Latina ainda podem fazer populações que saíram da pobreza voltarem para esse patamar de condição de vida”.

“Estamos muito atrasados para competir no mercado internacional com uma pauta mais sofisticada e ainda somos dependentes do modelo baseado na exportação matérias-primas. Para se mudar esses cenários, temos que mudar estruturalmente nossa capacidade de criar novos setores, incentivar a inovação, fortalecer a infraestrutura, aprimorar as políticas industriais e o manejo macroeconômico, pois o atual modelo ainda desestimula setores de mais alta tecnologia a fazerem investimentos em nossos países”, ressaltou Prado.

Regis Bonelli, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro, falou sobre a interrelação entre crescimento e produtividade. Existe, segundo ele, pouco espaço para uma mudança da estrutura produtiva e econômica no Brasil. A produtividade é pró-cíclica, ou seja, obedece ao crescimento do PIB, e o crescimento do país depende da produtividade interna dos setores. “Uma mudança estrutural teve contribuição importante para a produtividade brasileira até os anos 1980. Mas uma reestruturação não vai acontecer. A agropecuária será mais tecnológica e menos empregadora, e isso é uma tendência nítida”, acentuou.

Apresentação de Regis Bonelli, da FGV/RJ

Apresentação de Antonio Prado, secretário executivo adjunto da Cepal

Vídeo: Assista a íntegra do painel

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