Especialistas analisam potencialidades e desafios na relação cooperativa entre Brasil e China

Qiu Xiaoqi, embaixador da China no Brasil, abriu na manhã desta quinta-feira, 24, as participações do Painel IV: Brasil – China: Desafios estratégicos, mediado pelo diretor de Políticas Setoriais de Inovação, Regulação e Infraestrutura do Ipea, Carlos Silveira. Xiaoqi ressaltou que Brasil e China estão em boa fase de desenvolvimento e são atualmente, dois dos maiores motores da economia mundial. Após se desencadear a crise financeira mundial, muitos países desenvolvidos entraram em recessão, em contraste com cenário dessas duas nações emergentes, que mantiveram crescimento acelerado. Para o embaixador, a crise expôs as deficiências do sistema internacional.

Os dois países têm, na visão dele, estabelecido relações de acordos bilaterais mais rapidamente, e há potencialidade de colaborações ainda a serem exploradas. O diplomata apontou que, no período de 2003 a 2008, as relações comerciais entre Brasil e China cresceram 40%. “O Brasil é o nono parceiro comercial da China em todo o planeta, e o mais importante entre os BRICS”, disse. Os componentes industriais importados pelo Brasil, na sua visão, favorecem a competitividade da indústria nacional brasileira.

Affonso Celso de Ouro-Preto, embaixador do Instituto Brasileiro de Estudos de Concorrência, Consumo e Comércio Internacional, afirmou que a China, como a segunda maior economia do planeta, gera para o Brasil, um desafio, pois “estivemos sempre virados para o Atlântico, econômica e politicamente, e hoje o eixo econômico se vira para o Pacífico”. Mas ele alerta para o fato de a sociedade brasileira ainda não estar preparada para essa mudança de eixo. “Temos que entender que nossos interesses se deslocam, pois o centro econômico do mundo se transferiu para a Ásia e Oceano Pacífico; e a China é, há dois anos, o principal parceiro comercial do país”, completou.

Algumas características da sociedade chinesa explicam, segundo Ouro-Preto, a recente expansão econômica do país, como a forte tradição de organização, herdada do confucionismo, o fato de aproximadamente 40% da renda das famílias estarem em poupanças, o fato de o país conseguir favorecer suas exportações por meio da guerra cambial, economia de escala – grande território e a maior densidade populacional do planeta, que reduz preço por unidade para qualquer produção -, ainda o fato de quase metade da população chinesa viver na área rural, o que, aliado a salários relativamente baixos, gera um “estoque” de mão-de-obra com qualificação constantemente aprimorada.

“A China soube conceder financiamento subsidiando taxas de juros, o que favoreceu a expansão de sua indústria e o país tem uma infraestrutura de transporte não comparada a muitos países desenvolvidos e em desenvolvimento”, disse.

Desafio

A China coloca um problema para o Brasil: se proteger e se desenvolver frente à parceria com esse país. “A China sabe o que quer do Brasil, mas o Brasil não sabe o que quer da China. Não se criou até hoje um plano para que possamos continuar a aproveitar as relações comerciais e nos proteger em certas áreas ameaçadas pela concorrência que os chineses oferecem, e a política brasileira precisa ser readaptada para garantir a parceria com o China”, avaliou Ouro-Preto.

Ele alertou também para a necessidade de o Estado brasileiro avançar no controle da aquisição de terras, pois a China adquire grandes quantidades de terras em território nacional. “Fala-se em milhões de hectares em poder de empresas chinesas. Há projeto no governo federal para se limitar essa compra de terras por estrangeiros, não só a China”, argumentou.

Ele lembrou que o Brasil tem déficit com relação à construção de portos, e apontou que, se a China investir nisso, as exportações brasileiras seriam mais eficientes. Há, ainda, um projeto de cooperação tecnológica entre os dois países. Está em construção um satélite para fotografar o território brasileiro, para fins de estudos de viabilidade economica. O empenho tem 70% de participação da China e 30% do Brasil. Em contrapartida, tecnologias desenvolvidas pela Embrapa e Petrobras interessam à China, e são potenciais moedas de troca na cooperação bilateral.

A China só pode aproveitar 9% de seu território para a agricultura, assim, precisa dos produtores de soja, da qual o Brasil é o segundo maior produtor mundial, “e em pouco tempo será o primeiro, como apontam peritos na área”, disse. Outro-Preto destacou que o Brasil é um dos últimos destinos para o investimento China.

Oportunidades

De 1960 a 2011, o preço das commodities no mercado mundial subiu vertiginosamente, mesmo considerando a volatilidade típica em cenários de crise financeira, a constatação é do superintendente da Área de Pesquisa e Acompanhamento Econômico (APE) do Banco Nacional do Desenvolvimento, Fernando Puga, que integrou o painel.

Segundo os dados que ele apresentou 56% das importações da China são de insumos industriais (minério de ferro, aço e celulose, principalmente), 28% de alimentos e bebidas, soja em destaque, e 13% de combustíveis. Como o Brasil é grande produtor desses artigos, o crescimento da economia brasileira beneficia a China, o que, para Puga, é motivo para que o país se volte para agora para produção destinada à exportação além de commodities, para explorar mais o comércio com o país.

No tocante à produção de alimentos, a China tem grande desequilíbrio entre oferta e demanda, e tem um regime político com alta preocupação com a segurança alimentar, o que faz com que a inflação tenha grande efeito imediato na população, na análise do especialista. Os atuais planos do governo chinês para a expansão de sua infraestrutura urbana e o déficit habitacional de 70 milhões de unidades garantem a exportação de ferro e aço para o Brasil, finalizou Puga.

Combustíveis e produção de energia

Alexandre Corrêa, da Petrobrás, acredita que o diferencial competitivo da China é forte investimento em tecnologia, grande escala de mão de obra, e o planejamento econômico. A política industrial, entre os pontos de destaque, consiste em alto investimento na educação. Esses fatores, somados à latente população consumista, dão à China um potencial de crescimento “inigualável”, na explicação de Corrêa.

Ele afirmou que os chineses investem em todas as energias possíveis, e que o país tem a terceira maior reserva de carvão do mundo. Porém, é o segundo maior importador de petróleo do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Com o atual estoque, relatou, a China consegue manter menos de nove anos de sua atual produção. “Do atual crescimento mundial por petróleo, 42% se deve à China”, informou.

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